Tânia
Filipe chega à casa, atravessa aquele belo jardim, onde tudo parece igual, as mesmas roseiras, a mesma relva e a até o mesmo cedro que por eles tinha sido plantado num daqueles dias felizes da sua vida.
Filipe bate à porta, uma e outra vez, ninguém responde.
Já está quase a ir-se embora e voltar para o trabalho, quando de repente, uma ouve:
- Bom dia, desculpe quem é o senhor - dirige-se a ele uma rapariga, alta, de cabelos claros lisos, e olhar brilhante.
- Bom dia, chamo-me Filipe e vim aqui à procura de uma pessoa que julgava morar aqui, mas pelos visto enganei-me, desculpe o incómodo. - diz Filipe enquanto vira costas.
- Chama-se Andreia a pessoa de quem está à procura? - diz a rapariga num tom de voz tímido.
Um sorriso apodera-se da face de Filipe, enquanto ele se vira entusiasmado e diz:
- Sim, ela mora aqui?
- Sim, nós voltamos do Porto à pouco tempo, aliás ainda estamos em mudanças, mas o que lhe queria? Ela não está de momento, mas se quiser posso lhe dar o recado quando voltar.
Filipe diz não ser preciso e pergunta-lhe o nome.
- Tânia Silva, prazer.
- O prazer é todo meu - diz ele entusiasmado.
Filipe volta-se, e volta para o carro, afinal de contas todos aqueles pensamentos, tinham algum sentido, Andreia estava de volta e talvez lhe desse uma nova oportunidade.
Os Gonçalvez
Já chegando ao escritório, Filipe está pensativo quanto ao que ouvira, o carro que Luisa teria visto, seria mesmo o de Andreia.Não podia ser, Andreia tinha partido faz anos, e nunca mais tinha dado noticias, porque voltaria agora.
No entanto Filipe decide dedicar-se ao trabalho, pois essa visão do passado não lhe faz nada bem, foi algo que o magoou muito, algo que ele não queria voltar a sentir. Inda não tinha entrado no escritório e já a sua secretária, Liliana, que indicava o que tinha na sua agenda, para esse dia.
- Um divórcio, mais um da familia Gonçalvez, não demora nada e não terão filhos casados.
- Realmente Lili, não sei porque as pessoas se casam hoje em dia, para pouco tempo depois se separarem.
- Já não se sente nada - disse ela com um ar como triste, como se aquela situação lhe fosse familiar.
Voltando ao caso que tinha em mãos, Filipe lembra os casos que já resolveu para aquela familia. Dos cinco filhos do Sr.Bernardo Gonçalvez já só dois estão agora casados, e pelo que parece só um com intenções de estar casado.
Filipe, sente que ao ter escolhido a area de direito de familia, acertou na lotaria. Nunca antes, vira tantos divórcios, ele que verdadeiramente acreditava no amor, agora ajuda as pessoas a se livrarem umas das outras.
O telefone toca.
- Jorge Gonçalvez na linha - avisa a Lili.
- Obrigado - diz Filipe.
- Então Jorge, parece que queres seguir o exemplo da familia - Filipe conhecia mt bem Jorge, ele fazia parte do seu grupinho das saidas de sábado à noite, sempre fora um mulherengo, não estranhou nada que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde.
- Pois, parece que sim, nem sabes o que me aconteceu - diz Jorge.
- Conta lá, afinal preciso saber os pormenores, sou teu advogado.
- É simples, ontem á noite fui sair até um bar, la' vi uma rapariga que nunca mais tinha visto, que andava cá na secundária, fiquei totalmente perdido por ela, sinto que só com ela serei feliz, quero-me separar da Marisa, já não a aguento.
- Ok. Se é isso que queres vamos tratar disso. Já agora como se chama a miúda, pode ser que conheça - perguntou Filipe.
- Eu não tenho a certeza, mas perguntei ao Barman e ele disse que se chamava Andreia... Andreia Correia se não me engano.
Naquele momento Filipe, ficou sem ar, seria a Andreia que ele em tempos tanto amara, e que nunca mais conseguira esquecer. Tantas coincidências tinham que ter um fundo de razão. Filipe disse a Jorge que ligaria mais tarde, pegou na chave do carro e saiu.
Luisa
Filipe arrancou no carro, a pensar naquela conversa, aquelas palavras não lhe saiam da cabeça. Algo de estranho teria acontecido, aquela mulher de quem já mal se recordava tinha-o reconhecido. Como se ele fosse seu cliente habitual, como a sua rotina antiga nunca tivesse deixado de acontecer.
Por momentos, passou-lhe algo pela cabeça, mas seria bom demais para ser verdade. Era tão cedo e já tantos pensamentos lhe tinham passado pela cabeça. Filipe parou o carro, tinha chegado á pastelaria, aquela a que durante anos tinha ido tomar o pequeno almoço com Andreia.
Entrando na pastelaria, Filipe depara com um rosto familiar, é Luisa uma das colegas de faculdade de Andreia. Ela acena, depois de tanto tempo ela também o reconhece - afinal nao foi apenas a Sra. do Quiosque - pensou ele. Filipe dirige-se para a mesa onde ela está sentada e pede para se sentar.
- Olá Filipe, tú por aqui?
- Sim, decidí mudar um bocadinho a rotina hoje - diz ele.
- Engraçado, hoje de manhã ao sair de casa lembrei-me de ti - interrompe ela.
- Ah, lembras-te de mim porquê?
- Ah, sim vi o vosso carro a passar à saida de minha casa.
- O nosso? Como assim nosso? - interroga ele.
- Teu e da Andreia, vocês nao vivem juntos?
Filipe nem responde, mas Luisa percebe o q havia acontecido apenas pela expressão triste que a cara dele reflecte.
- Acabou, era perfeito mas acabou, foram bons momentos mas de repente tudo ficou mal. Nós não soubemos distinguir as coisas.
Filipe olha para o relógio e explica que tem que ir, que o trabalho espera por ele. Luisa diz que também tem que ir, mas que aquela conversa nao terminou ali.
Ele levanta-se, paga a conta e sai da pastelaria.
Dia D
Filipe levanta-se num gesto de sacrifício, ele mais que ninguém odeia a rotina, daria tudo por mais umas horas de sono, mas não, ele como sempre tem de fazer o que todos fazem, levantar-se e ir trabalhar.
No escritório espera-o mais um processo, processos que ele costuma ganhar, porque apesar de preguiçoso, Filipe é um dos melhores profissionais da sua área, com uma capacidade argumentativa fora do comum, e uma astúcia muito bem afinada.
Um olho depois do outro Filipe lá se levanta, encaminhando o seu corpo cansado em direcção ao banho, a noite anterior fora pesada certamente, apesar do pouco que se lembra, efeitos do whisky, bebida predilecta, que bebe como de água se tratasse, ele próprio costuma dizer, que Deus devia ser escocês, e que a bebida do senhor não era o vinho mas sim o whisky.
Da noite anterior Filipe lembrava-se apenas de ter combinado encontrar-se com Tiago, que não apareceu.
Talvez tenha encontrado alguma das suas muitas amigas - pensou Filipe.
Já enxuto e vestido, pegou na chave do carro e dirigiu-se para a garagem.
Quando chegou ao carro, Filipe ligou o rádio, na rádio tocava "Living in a prayer", aquela musica recordava-lhe algo passado, era a preferida de Andreia, uma ex-namorada que o marcara bastante, ela tinha sido o melhor para ele, viveram momentos muito bons.
Mas tinha sido também o pior, pois um dia aquela relação perfeita, acabou, simplesmente acabou, aquele sorriso a que se habituara ver pela manhã desapareceu sem deixar rasto, nem explicações.
A vida dele parecia ter acabado, parecia mais um daqueles processos em que pegava todos os dias, em que as pessoas não pareciam seres humanos, estava extremamente magoado, a sua vida não tinha mais objectivos, eram apenas processos, processos de uma vida em que os sonhos haviam-se desmoronado, em que só restavam memórias.
No mesmo dia, Filipe prometera não mais agarrar-se de tal forma a uma pessoa, aquilo era sofrimento puro, o mesmo sentimento a que um dia chamara amor.
Agora, Filipe era um homem sempre alerta, não se deixava sentir, não deixava evoluir nada para além de uma amizade, só assim se sentia seguro, para ele o amor era um lugar estranho.
No carro, a música lembrara-lhe o que sofrera, apesar de quatro anos passados, ele não a tinha esquecido, tinha sido demasiado forte.
No entanto a música terminou, Filipe rodou a chave e arrancou.
Estava na hora do pequeno-almoço, todos os dias a mesma coisa, a padaria habitual e as pessoas do costume. A rotina que tanto detestava, estava cada vez mais entranhada no seu dia a dia, era tudo demasiado igual. Filipe parou no vermelho, enquanto isso, as lembranças de Andreia voltaram a ocupar os seus pensamentos, não entende o porquê de naquele dia não esquecer aquele assunto, seriam os efeitos de uma noite exagerada?! O sinal passa pa verde, Filipe arranca.
No entanto, ao chegar ao cruzamento onde deveria virar para a avenida, Filipe decide ir exactamente no sentido contrário, sabe muito bem onde está, aproxima-se cada vez mais da casa onde ele e Andreia haviam morado juntos. Ao chegar aquela casa, Filipe tem uma sensação de como se tudo tivesse parado naquele dia, ou até mesmo andado pra trás, aquele local tinha sido mágico e mesmo passado tanto tempo não perdera a magia, Filipe decide cumprir a sua rotina antiga, e arranca para ir buscar o jornal. Pára no velhinho quiosque, o quiosque onde durante tanto tempo comprou o jornal, onde Andreia comprava as suas revistas, onde comprava tabaco. Chega ao balcão e a cara que lhe sorri e pergunta :
- Há muito tempo que não o vejo, Ventil?
- Não, vai ser o JN – responde Filipe.
- Outro? – pergunta ela.
- Outro, como assim? – diz Filipe.