Dia D

Estava um lindo dia de sol, onde não cabia outra vontade para além de preguiça..
Filipe levanta-se num gesto de sacrifício, ele mais que ninguém odeia a rotina, daria tudo por mais umas horas de sono, mas não, ele como sempre tem de fazer o que todos fazem, levantar-se e ir trabalhar.
No escritório espera-o mais um processo, processos que ele costuma ganhar, porque apesar de preguiçoso, Filipe é um dos melhores profissionais da sua área, com uma capacidade argumentativa fora do comum, e uma astúcia muito bem afinada.
Um olho depois do outro Filipe lá se levanta, encaminhando o seu corpo cansado em direcção ao banho, a noite anterior fora pesada certamente, apesar do pouco que se lembra, efeitos do whisky, bebida predilecta, que bebe como de água se tratasse, ele próprio costuma dizer, que Deus devia ser escocês, e que a bebida do senhor não era o vinho mas sim o whisky.
Da noite anterior Filipe lembrava-se apenas de ter combinado encontrar-se com Tiago, que não apareceu.
Talvez tenha encontrado alguma das suas muitas amigas - pensou Filipe.
Já enxuto e vestido, pegou na chave do carro e dirigiu-se para a garagem.
Quando chegou ao carro, Filipe ligou o rádio, na rádio tocava "Living in a prayer", aquela musica recordava-lhe algo passado, era a preferida de Andreia, uma ex-namorada que o marcara bastante, ela tinha sido o melhor para ele, viveram momentos muito bons.
Mas tinha sido também o pior, pois um dia aquela relação perfeita, acabou, simplesmente acabou, aquele sorriso a que se habituara ver pela manhã desapareceu sem deixar rasto, nem explicações.
A vida dele parecia ter acabado, parecia mais um daqueles processos em que pegava todos os dias, em que as pessoas não pareciam seres humanos, estava extremamente magoado, a sua vida não tinha mais objectivos, eram apenas processos, processos de uma vida em que os sonhos haviam-se desmoronado, em que só restavam memórias.
No mesmo dia, Filipe prometera não mais agarrar-se de tal forma a uma pessoa, aquilo era sofrimento puro, o mesmo sentimento a que um dia chamara amor.
Agora, Filipe era um homem sempre alerta, não se deixava sentir, não deixava evoluir nada para além de uma amizade, só assim se sentia seguro, para ele o amor era um lugar estranho.
No carro, a música lembrara-lhe o que sofrera, apesar de quatro anos passados, ele não a tinha esquecido, tinha sido demasiado forte.
No entanto a música terminou, Filipe rodou a chave e arrancou.
Estava na hora do pequeno-almoço, todos os dias a mesma coisa, a padaria habitual e as pessoas do costume. A rotina que tanto detestava, estava cada vez mais entranhada no seu dia a dia, era tudo demasiado igual. Filipe parou no vermelho, enquanto isso, as lembranças de Andreia voltaram a ocupar os seus pensamentos, não entende o porquê de naquele dia não esquecer aquele assunto, seriam os efeitos de uma noite exagerada?! O sinal passa pa verde, Filipe arranca.
No entanto, ao chegar ao cruzamento onde deveria virar para a avenida, Filipe decide ir exactamente no sentido contrário, sabe muito bem onde está, aproxima-se cada vez mais da casa onde ele e Andreia haviam morado juntos. Ao chegar aquela casa, Filipe tem uma sensação de como se tudo tivesse parado naquele dia, ou até mesmo andado pra trás, aquele local tinha sido mágico e mesmo passado tanto tempo não perdera a magia, Filipe decide cumprir a sua rotina antiga, e arranca para ir buscar o jornal. Pára no velhinho quiosque, o quiosque onde durante tanto tempo comprou o jornal, onde Andreia comprava as suas revistas, onde comprava tabaco. Chega ao balcão e a cara que lhe sorri e pergunta :
- Há muito tempo que não o vejo, Ventil?
- Não, vai ser o JN – responde Filipe.
- Outro? – pergunta ela.
- Outro, como assim? – diz Filipe.
-Desculpe, devo ter confundido- diz ela.Filipe paga o jornal, sorri e volta para o carro, sem perceber o porquê daquela conversa.